Edjuarai Gama Biografia Da infância

Nasci em 1984, na maternidade Lucrécia Paim. Meus pais moravam no bairro de Hoji-ya-Henda, musseque popular de Luanda, onde o chão era de terra batida, os vizinhos eram extensão da família e as crianças aprendiam mais rua do que em casa.

Os assaltos eram uma rotina, e os meus pais decidiram mudar-se para outro lugar. É assim que, em 1986, com 2 anos de idade, deixámos o musseque e fomos viver para o Bairro dos Coqueiros, no coração da cidade baixa — perto da Mutamba. Foi lá onde cresci e passei a minha infância e juventude.

Estudei na Escola 9, situada no sopé da montanha do Palácio — Cidade Alta —, coberta por árvores de maçãs-da-Índia. Durante anos, eu e os meus colegas brincámos ali. Lembro-me que brotava do chão um líquido prateado que, fascinados pelo brilho, guardávamos nos bolsos, sem saber que era tóxico — o valioso mercúrio. Só mais tarde, já adulto, apercebi-me do perigo que tínhamos passado inocentemente — e talvez ali tenha começado a minha percepção de que o belo e o perigoso muitas vezes se atraem.

As minhas férias e dos meus irmãos eram divididas entre a nossa casa e a casa dos meus avós maternos, no Bairro Rangel. Adorava ficar na minha avó, onde o rádio jamais era desligado, adicionada à fala pausada dos mais velhos. Isso me incentivou e formou o meu carácter.

Os meus avós paternos moravam no Sambizanga, mas dificilmente mantínhamos contacto e, quando acontecia, era um tipo de silêncio — mais ancestral, menos caloroso e cheio de histórias não contadas.

Depois do ensino primário, estudei na Escola Alda Lara, onde um professor reprovou-me por corrigi-lo sempre que pronunciava erradamente uma palavra. Mediante tal constatação, no ano seguinte fui para a Escola Mutu-ya-Kevela. Rodava bem a cidade, Kinaxixe, Ingombota eram a minha zona de acção. Adorava fazer trocas de disquetes de videojogos para os meus irmãos mais velhos.

Mas também gostava das aventuras do caminho, aproveitava atravessar a cidade a pé, ver montras, observar as pessoas, sentir o cheiro da rua, do pão, enfim… foi o meu modo de conhecer Luanda por dentro, com a desculpa de trocas de videojogos e vídeo filmes.

Aos domingos, ia com os amigos para a Praia da Chicala — era a mais próxima de casa e foi lá que aprendi a nadar, ao lado dos meus irmãos de traquinices, Paulo e Michel. Fazíamos a travessia de um quebra-mar a outro.

Sem coletes, sem aulas, sem medo, só de corpo lançado à água, com os amigos na plateia a incentivar.

Aquela sequência de pedras negras que cortam o mar foi o meu primeiro campo de coragem. Nadar dali até à próxima margem era como atravessar um pedaço de vida, com força e confiança, sem perceber o perigo.

Nos fins de semana, o chão era a minha pista de patinagem. Calçava os patins em linha e descia o Eixo Viário, muitas vezes em zigue-zague, entre carros e buzinas, como quem desafiava o perigo só para sentir-se vivo. Era muita adrenalina, liberdade, e uma forma de dizer ao mundo: “Estou aqui, não tenho medo de escorregar para a frente.”

Houve alturas em que descia o Trópico, passando pela Escola São José de Cluny e pela floresta escondida por detrás da mesma. Grande zona verde — segredo escondido da cidade. Caminhar por ali era maravilhoso, me fazia sentir especial. Eu gostava da escola católica, do frescor das árvores, da adrenalina dos passos que me levavam à Rua Rainha Ginga.

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