LIVRO: ANGOLA A GUERRA DEPOIS DA PAZ. Autor: Edjuarai Gama. Memórias de 1992
Morava no Bairro dos Coqueiros, a menos de 100 metros do Hotel Turismo — onde a UNITA estava hospedada. Quando começaram os confrontos entre o MPLA e a UNITA, o conflito atravessou a rua. Tornou-se pessoal.
Eram sons de tiros que marcavam o ritmo da vida.
Nos primeiros dias, vi blindados a moverem-se à noite como animais pesados, rastejando pela cidade. Vi tiros a perfurarem o silêncio das casas. Vi o medo escorrer pelas paredes.
Na noite anterior à nossa fuga para casa da minha avó, dormimos todos apertados no pequeno quarto de banho.
A minha mãe dizia que era a parte mais segura da casa — protegida pela paredes da sala e do quarto. Não havia água, porque uma bala perfurou o tubo da electrobomba.
Havia luz durante o dia, mas à noite era cortada. Talvez por estratégia.
Fomos racionalizando a comida. Nem a minha mãe sabia quanto tempo aquilo duraria.
Ficamos com medo . Chorei até porque Já havíamos nos refugiado uma semana antes, em casa dos meus avós maternos, no Rangel. Mas naquele dia, precisamente naquele dia, a minha mãe foi à nossa busca — porque achava que nada havia de grave.
Uma bala entrou pela janela do nosso apartamento e cravou-se na parede onde ficava o beliche em que eu dormia.
A sorte, naquele dia, parecia ter olhos.
Foram apenas três dias. Mas, nesse entretanto, apareceu o meu tio Monterinho — irmão mais novo da minha mãe.
Vinha acompanhado de um amigo e de uma AK-47 amarrada ao cano com um pano branco — um sinal improvisado de paz.
Vieram buscar-nos — a mim e ao meu irmão Ivanno. Fizemos o trajecto a pé, dos Coqueiros ao Rangel, onde viviam os meus avós maternos.
O caminho era longo. Era como atravessar o apocalipse da baixa de Luanda.
Passamos a mutamba e subimos pela Avenida da Embaixada Portuguesa.
As ruas estavam repletas de cadáveres abandonados. Carros incendiados. Edifícios cravejados de balas.
Vi montras partidas. Pessoas armadas, em grupo ou isoladas.
A cidade respirava violência.
Quando nos aproximávamos da Sagrada Família, o meu tio alertou:
— “Há atiradores inimigos naquela zona da igreja. Estão a matar muita gente.”
Avançávamos com o medo colado à pele.
Chegados ao Bairro Rangel — e embora fosse uma área periférica —, naquela altura era como um oásis. Havia paz.
Era uma diferença tão grande que nem parecia a mesma província.
As crianças brincavam na rua. As pessoas levavam a vida normalmente. Como se a guerra não fosse real.
A minha mãe ficou para trás. Ficou em casa com os meus irmãos mais velhos — Gianny e Edna — para proteger o lar de possíveis invasores.
Na esperança de que, ao voltarmos, ainda houvesse um lar.
Mas arrependeu-se…
Lembro-me de que a Escola 9, onde estudava, ficou toda vandalizada após o cessar-fogo.
Carteiras destruídas. Janelas partidas. Paredes e quadros grafitados.
Acredito que, durante os confrontos, pessoas que não conseguiam regressar às suas casas ali pernoitaram durante os três dias.
A direção da escola e os pais uniram forças e fizeram contribuições para comprar carteiras novas.
Foi um pequeno gesto de reconstrução. Num cenário de guerra e ruína.
Depois da Guerra, Luanda mudou.
Tornou-se uma cidade cheia de deslocados. E de pedintes, vindos de todas as províncias.
Surgiram famílias a viver debaixo de prédios, nos passeios, jardins, carros avariados…
Grande parte deles tomaram o hotel turismo de assalto transformando em lar de centenas de refugiados o que fazia do centro da cidade a montra da gravidade do problema.
Lembro-me de um gueto improvisado nas ruínas da antiga Fábrica de Sabão — onde hoje é o moderno Centro de Ciência de Luanda (CCL).
De indústria de sabão passou ser um campo de refugiados e histórias de sobrevivência.
Havia casas improvisadas com tudo o que encontravam no lixo: chapas, cartões, napas, panos, redes, mosquiteiros militares oferecidos pela UNAVEM.
Como criança, eu não compreendia a gravidade da situação. Mas tinha plena consciência da seriedade da guerra.
Ouvi histórias de tortura, sofrimento e carnificina contadas por alguns deslocados de várias províncias que ajudavam a carregar agua,lavar os carros e subir com as compras a troco de roupa alimentação e dignidade.
Angola chorava em uníssono. E aos gritos.
Embora em dialectos diferentes.
Por causa da distância geográfica.
Texto Original: Edjuarai Gama - ANGOLA A GUERRA DEPOIS DA PAZ.
LIVRO: ANGOLA A GUERRA DEPOIS DA PAZ.
Autor: Edjuarai Gama.
Memórias de 1992
A minha infância foi marcada a ferro quente pela guerra de 1992.
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